APRESENTAÇÃO
A GARAGEM DAS CARRIÇAS é um Blog Motard, de motard para motards e contemplativos.
Exalta os prazeres e vantagens do mototurismo, a utilização dos motociclos como soluções mais práticas e menos poluentes no uso corrente, bem como a solidariedade entre motociclistas e o valor do motoclubismo.
A GARAGEM DAS CARRIÇAS 3 continua
e
agora em novo endereço, seguindo os mesmos princípios.
A CARRIÇA VII EM PORTALEGRE
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei numa casa velha,
À qual quis como se fora
Feita para eu Morar nela...
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei numa casa velha,
À qual quis como se fora
Feita para eu Morar nela...
Assim começa a “Toada de Portalegre”, de José Régio, belo poema descritivo desta bela cidade.
Reli-o depois de ter sido convidado pelo companheiro da minha filha a visitar a sua casa de família, fez parte da preparação para a viagem.
Como não gosto de viajar nem de noite nem ao fim de semana ou feriados – que é quando os weekendistas que andam engravatados à semana e em transportes públicos a caminho do trabalho, saem nas suas latas, bebem bem, mal sabem conduzir e são um perigo – atendendo a que a minha filha e genro iam viajar enlatados na noite de dia 15, feriado, e eu só no dia a seguir, distribuí cargas para fazer a viagem de ida mais leve na pequena Carriça VII. No carro foi a minha gata Xana, no seu transporte por mim transformado em saco de depósito, mais o malão que leva tenda, saco-cama etc. para se me apetecesse ir a outro lado com alguma autonomia; na moto levei só uma pequena mochila com máquina fotográfica, mapas, etc., e muito menos peso.
Decidi fazer um trajecto indo por Vila Franca de Xira e regressando pelo Sul, para não repetir a mesma estrada, e a diferença de quilómetros não é muita – particularmente quando se viaja num veículo que consome 3,5 l em 100 kms.
Ultrapassada a “fuga” da cidade, isto é, o AE sem piada nenhuma até Vila Franca de Xira, finalmente revivi o gosto pela estrada, estrada propriamente dita, e fiquei surpreendido ao passar na N10, depois do Porto Alto, ao ver, primeiro, na minha ingenuidade, tantos restaurantes chineses, grandes, bem grandes, até perceber que são muitos, mas muitos, grandes armazéns, hipermercados – é que a maior parte só tem anúncios em ideogramas…
A passagem do Ribatejo para o Alentejo foi-me extremamente agradável pois há anos que não percorria aquelas estradas algo monótonas, é certo, pois não têm quase curvas, parece que a mota é que guia, mas a paisagem é-me muito gratificante de ver.
Sou de Lisboa e habituei-me a ver o mar perto, até me faz falta não o olhar por muito tempo. Uma vez, era ainda um jovemzinho de 18 anos, e estava a olhar do terraço do Hotel Zurbaran em Sevilha a bela paisagem quando senti a falta de qualquer coisa. Pensando um pouco percebi que era uma paisagem muito bonita mas não tinha mar, e eu gosto de ver o mar.
O Alentejo que já tantas vezes percorri, sempre me deu, pela sua extensão e tipo de terreno, uma sensação algo parecida com a ao ver o mar, só que é terra. O Baixo Alentejo com as suas longas planícies do interior parece um mar chão, que quando o calor é intenso parece ondular levemente com a refracção da luz junto à superfície em brasa, particularmente sobre o asfalto são quase miragens. O Alto Alentejo, por sua vez, parece um mar encapelado, ao longe estão as grandes vagas ameaçadoras que são as serras, os montes que se elevam aqui e ali, mas é sempre ao longe, e as vagas em que navegamos são mansas.
A parte da estrada que ladeia Montargil foi percorrida devagar, pois bem justifica ir deitando o olho à água que vai aparecendo entre as árvores e as construções, é muito bonito e um óptimo espaço para piqueniques à sombra e à beira de água.
Da "Fonte dos Amores" se diz que moça solteira que daquela água beba se virá a casar com rapaz de Portalegre
Os meus anfitriões...
... que me levaram a visitar o antigo Café Alentejano, de visita obrigatória, e que tem um painel mural de autor anónimo, que contempla os vários modos de vida da região...
... contaram-me que se criou uma lenda na cidade segundo a qual, moça que chegue virgem à cidade para estudar, sairá virgem se "O Semeador" tirar a mão do saco...
Ponte de Sor é uma terra que justifica uma paragem e um passeio à beira rio. Não o fiz porque já a conheço de uma altura em que lá estive unxs dias, há uns anos, por razões profissionais. E também não parei no Crato porque, na verdade, estava ansioso por chegar e beber umas tantas bejecas com filha e genro e quem mais estivesse – é que tinha saído às 14 horas de Lisboa, com muito calor, ensopado em suor dentro do equipamento, quando cheguei a Vila Franca de Xira já tinha tanta sede que parei no primeiro restaurante para beber a primeira imperial, no Couço parei frente à primeira porta que vi aberta - não tinha levado água comigo e estava arrependido - mas era uma mercearia, e como havia um café à frente... depois quando meti gasolina em Mora bebi outra, mas a secura era muita.
Satisfiz o desejo à chegada, enquanto esperava que viessem ao meu encontro para morada que ainda não sabia ao certo, e as coisas melhoraram consideravelmente. O clima de Portalegre é de serra, daí mais fresco, e a tarde já ia adiantada, pouco depois tratava-se era de jantar e optámos por ir todos ao restaurante, cinco à mesa, incluindo a irmã do meu genro e seu namorado, tudo gente animada, a comer e beber muito bem.
Como – queixam-se eles – a vida em Portalegre é muito monótona, a chegada de visitas é, em si mesma, uma festa. Festa essa que se prolongou ao longo da noite (para eles, porque eu fui deitar-me ainda não tinha nascido o Sol).
Consequentemente o dia seguinte foi para a recuperação, ou “ressaca”, como se costuma dizer. E só um dia depois é que me levaram a passear de lata para ver e fotografar Portalegre e Marvão, que eu já não via há perto de 30 anos.
Sé, note-se em pormenor um dos muitos ninhos de cegonha que existem por aqui
Também no antigo edifício da Câmara
Estranho arco...
Também no antigo edifício da Câmara
Estranho arco...
É muito bonito, as fotos que o digam, mas nada como montar na motinha e ir navegando por estradas do Alentejo até Portalegre e Marvão.
Marvão, entrar em Marvão é regredir no tempo, passar uma porta de cidade e encontrar construções de há muitos séculos. Está tudo muito bonito, por certo muito mais cuidado e limpo do que nos séculos anteriores. A estrada também é bonita, de Portalegre lá, como íamos três não podíamos ir na Carriça, daí que lá fomos enlatados. Um tanto perigosa em certas passagens, diga-se, é estreita e nas curvas não há lugar a fora de mão.
Chegamos ao fim da tarde, o calor durante o dia tinha sido muito e a secura era enorme. O café encontrava-se fechado, por cima havia a Associação de Jovens e após breve diálogo abriram-nos o espaço e o frigorífico com cerveja. Muito bom.
Vista da janela da Associação de Jovens
As fotos mostram bem a beleza encontrada, mas há uma coisa que eu não fotografei e que gostava de vos contar, caros companheiros e contemplativos: é que é bom ver pessoas felizes, particularmente as crianças, e foi tão bom de ver da porta dum simpático bar onde lanchamos antes de sairmos, enquanto fumava um cigarro, a alegria duma petiza, menina de uns seis anos, talvez, levando um cãozito pequeno pela trela ao encontro de outros dois canitos pequenos e todos envolvidos na brincadeira. A vózinha de passarinho da menina, as suas gargalhadas, os latidos dos canitos, tudo isso me pareceu música perante o silêncio que inundava a paisagem.
Resta acrescentar que esta família que me acolheu é uma grande amiga de animais – assim não fora e eu não seria acolhido – e posso mesmo dizer-vos que quem quiser adoptar um animalzinho, cão ou gato, já desparasitado e tudo, pode contactar A Garagem das Carriças em carrissa-vii@sapo.pt e arranja-se. Eis alguns dos muitos íntimos de casa:
e a Xana, gata motard (que enjoa a andar enlatada e adora o vento que passa pelas redes do transporte feito saco de depósito:
Impunha-se o regresso. Desta vez optei por deixar passar o maior calor e partir aí pelas 16 horas. Depois de umas últimas fotos a partida. Custou-me. Estava a arrumar as coisas satisfeito e surgiu-me uma primeira cantiga, aquela tradicional Alentejana “Vou-me embora, vou partir…”, estava para cantar mas a voz entaramelou-se-me na garganta e já parecia que os olhos estavam a suar, tanto era o calor.
No café onde me despedi da minha filha e genro ainda entoei aquela do SG (Sérgio Godinho) “Pois soube-me a pouco…”, mas compromissos são como “o que tem que ser”.
Já despedidos e diz o meu genro
- Você não tem luz de trás…
Para mim era normal não ter luz de trás, mas é uma expressão normal quando se assume que o veículo é um prolongamento da pessoa, e é normal dizer-se “você tem um furo na roda de trás” embora as pessoas não tenham rodas.
Tratava-se, portanto, da Carriça VII e felizmente que trago debaixo do banco uma lâmpada para o farol da frente e outra para o farolim de trás – coisa já obrigatória em Espanha, lembre-se – e foi fácil, o jovem ofereceu-se para fazer a substituição enquanto eu despia o blusão pois o calor era muito.
Preocupava-me o animal que trazia no transporte feito saco de depósito pois ainda seriam umas horas de viagem num mínimo espaço, com muito calor, tanto que a garrafa de água que meti entre as duas redes que seguravam a mochila, quando parei, finalmente, pouco antes de Montemor-o-Novo estava quente, e viajávamos dentro de um ar tão quente que cada vez que um camião se cruzava connosco a sua deslocação de ar fazia-nos abanar e era mais um banho de calor.
Na paragem num oásis chamado “Restaurante do Parque” não pude ficar ao fresco dentro pois queria soltar a Xana pois podia ter alguma precisão e convinha dar-lhe água. Da água quente da garrafa não bebeu, o que era compreensível, eu, por meu lado, bebi uma imperialzinha que me soube muito bem. A pobre gata estava cheia de calor, mal a soltei meteu-se debaixo dum carro onde a sombra era mais fresca do que onde estava a mota.
Voltei a metê-la no transporte feito saco de depósito e depois de lhe pôr um pouco de ração fui com o copo vazio da imperial numa mão e a tijelinha da água da gata na outra pedir lá dentro água fresca para a gata e outra imperial para mim. Tudo muito agradável, simpático, e até barato, como costuma acontecer mais fora de Lisboa.
Quando regressei e voltei a soltar a Xana para beber a água fresca, ela o que procurou primeiro foi a sombra mais fresca debaixo do carro de onde espreitava olhando-me de boca aberta e língua de fora qual cãozinho ansiando pela partida e a estrada em que, ao menos, se apanha algum vento menos quente pelo movimento, e acabou por regressar por si ao transporte feito saco de depósito
.
O Sol caía a pique quando nos abeirámos de Lisboa. Por alturas de Setúbal ocorreu-me, como já eram horas de jantar, convidar um ou outro companheiro do “deserto ao Sul do Tejo” para o fazermos juntos, mas como havia a gata presa e seria uma coisa à última hora, acabei por meter para a AE direito a Lisboa.
Não foi uma participação da Carriça VII – motivo fundamental da existência deste Blog Motard – num evento de motociclistas, mas foi uma prazenteira viagem de motinha. Muito bom, mesmo – e aos anfitriões já expressei os meus agradecimentos, que renovo.
As minhas saudações









































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