A CARRIÇA VII NA 13ª CONCENTRAÇÃO
MOTOTURÍSTICA DO MOTO CLUBE DE
MAFRA "RATAZANAS DO ASFALTO"
(Dedicado especialmente ao companheiro Zé Carlos do Moto Clube do Tojal, Loures, pela sua ajuda na minha aflição)
Viva companheiros e contemplativos
Se vos dissesse que esta viagem de ida até à 13ª
Concentração dos Ratazanas do Asfalto foi boa mentia, foi má, muito má, nunca
me tinha sentido tão mal em cima duma mota.
Nada que tenha a ver com a Carriça VII que teve o seu normal
desempenho, mas antes comigo próprio e a minha condição física.
Vou-vos contar.
Os seguidores do Blog Motard A Garagem das Carriças sabem
que não estivemos presentes em nenhuma concentração motard desde 2009, sendo a
última a 10ª do Moto Clube de Mafra. Desde aí tem sido muito complicado e
difícil, por situações da minha vida que, afinal, são comuns a grande parte da
envelhecida população desta terrinha: velhos dependentes = prisão.
Daí que passei por um esforço stressado até me libertar para
este fim de semana, que me levou até ao meio da tarde, quando eu já queria era
estar lá.
Às vezes um gajo abusa, e vai até aos limites – se os
passar, o normal é prejudicar-se.
Ora como a necessidade obriga, atendendo a que ainda estava
só com o pequeno almoço, optei por um lanche rápido, um sintético lanche de
sandes de queijo fresco, duas imperiais, e, para passar a acelerar, um café só com
um cheirinho de uísque que me soube muito bem mas iniciou o mal estar. Não
imediatamente.
A coisa começou depois de vestir o equipamento de protecção
de cabedal. O calor era muito e eu escorria suor como um duche que saía de mim,
seguiu-se o esforço de carregar a Carriça, baixar e levantar a prender
elásticos, etc., e começaram as tonturas.
Depois de todo este esforço chegou a passar-me pela cabeça
ir só no dia seguinte, mas não, não podia ser, já eram umas 19 horas e eu já lá
devia estar a ver o pessoal chegar com a tenda montada no meu local preferido,
e nada.
Como já me tinham explicado que quando está muito calor há
tendência para baixar a pressão arterial máxima, e quando se faz esforço tende
a levantar a pressão arterial mínima, as duas situações juntas dão demasiada proximidade
entre máxima e mínima, o que dá geralmente um azamboado na cabeça ou tonturas,
e já tendo verificado que nestas circunstâncias andando de mota a velocidades
moderadas estou melhor do que parado, lá me meti à estrada.
A receita funcionou, mas não perfeitamente, continuava a
sentir-me inseguro, mesmo a viajar à velocidade suspeita de 60 a 80 kms/h em AE continuava
com sensação de tontura.
Já estava hesitante, páro na próxima estação de serviço ou
não páro?, ahh, isto afinal são meia dúzia de kms até ao Sobreiro, vamos lá,
mas se calhar é melhor tomar um café porque isto é capaz de ser queda de tensão.
Parei, tomei café, fumei um cigarro, tentando eliminar a
ansiedade da chegada, porque afinal, nas concentrações aparece gente a toda a
hora, às vezes é de madrugada que estão a armar a barraca.
Fui verificar a pressão dos pneus, sentia-me melhor e só foi
chato o tubo da bomba de pressão de ar estar roto, o que me levou a registar
que tinha de ver de novo, e arranquei.
Daí a pouco, as tonturas voltaram agravadas, não queria
encostar na AE mas foi com esforço e muito devagar que cheguei à próxima estação
de serviço.
Achei que devia beber água, só água, e bebi uns copos,
mexi-me um bocado até me sentir melhor e quando isso aconteceu fui medir o ar
dos pneus. A pressão do da frente estava boa, vamos ao de trás, e quando me
baixo sinto uma tal tontura que optei por me sentar e esperar.
Aí lembrei-me, enquanto esperava melhor disposição, do
Jacques Bonhomme de que falava Jean-Jacques Rousseau, o bom senso é de toda a
conveniência – é uma figura similar ao Zé Povinho.
Só sairia dali em condições de segurança.
A sorte protegeu-me, passados minutos estacionou junto à
recepção um companheiro montado num piano com carga de tenda e mais não sei
quê que desmontou e entrou na loja, quando regressou observei que trazia colete com bordados e atrevi-me a
pedir-lhe ajuda.
Perguntei-lhe se ia para a concentração de Mafra e como, de
facto, ia, expliquei-lhe a minha situação e angustiado perguntei se ele teria
paciência para me acompanhar a 60 ou
pouco mais kms/h. A sua disponibilidade foi completa, verifiquei logo que era
um motard, um companheiro a sério.
Mais uns momentos de espera até me sentir em condições e lá fomos, a última dúzia de kms até ao destino. Mas não
ainda directamente. Ele seguia-me e quando entrei no Sobreiro acabei por me
enganar numa rua qualquer e andamos ali às voltas até perguntar pelo caminho,
mas a indicação não foi certa e já há uns minutos que ali andávamos às voltas
quando me senti outra vez tonto a ponto de ter de parar. E ali ficamos, à
espera que passasse. Seria triste "morrer na praia".
Foi aí que o vento nos trouxe a orientação por ouvido, nós
estávamos na paralela umas ruas à frente, e a partir daí
- Vamos lá.
E rapidamente lá chegamos.
Fiquei para sempre agradecido ao companheiro José Carlos, do
Moto Clube do Tojal, Loures, pela sua solidariedade e tão bom préstimo. Sem ele
eu duvido que chegasse, talvez chegasse a pedir socorro ao 112.
Por isso, mal cheguei, logo que pude, fui à carrinha dos
Bombeiros (também eles muito disponíveis e prestáveis, o meu obrigado) medir a
pressão arterial, e estava bem alta, para mim. O meu diagnóstico leva-me a pensar que estava desidratado e
mal alimentado, além do excesso de calor junto com equipamento inadequado. E
café demais.
A recepção foi óptima, com toda a gente a querer ajudar, e
foi magnífico reencontrar companheiros e conhecer novos companheiros.
Mais uma vez se confirmou a capacidade e eficácia dos Ratazanas
do Asfalto realizando uma concentração que toda a gente diz que “é pequenina
mas é das melhores do país”.
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| embora com menos presenças do que em anos anteriores o ambiente estava composto |
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| o amigo Jorge é um "ferro velho" especial, com muito bom gosto junta tralha que são objectos raros e coleccionaveis |
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| eis a bike do Capitão Pirata, original motociclista que usa as pernas como motor |
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| pela madrugada revelam-se os artistas ocultos, estes já tocavam tábua de transporte de bejecas |
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| a fotografia é o contrário do movimento, que era a principal graça deste objecto publicitário duma barraca de venda. |
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| o mesmo acontece com o espectáculo de André Cuko, é feito em movimento, as fotos são instantes parados do movimento |
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| parafraseando George Orwell "todos os fotógrafos são iguais, mas há uns que são mais iguais do que os outros" |
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| mas a habilidade do tetra campeão mundial André Cuko era imensa, como as fotos dão uma ideia |
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| não faltaram cavalos, éguas, e outros animais de quem não sei o nome |
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| os putos dos Gritos Mudos (Tributo a Xutos) |
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| os Tomaszumcopo (que têm um guitarrista de excepção) |
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| estes são do reggae, Quem é o Bob (Tributo a Bob Marley) |
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| e os 69 Graus retornaram-nos ao Rock autêntico e gabo-os pelo seu esforço dedicado e grande comunicação - boa banda |
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| ritual de baptismo de membro do Moto Clube de Odivelas "Doninhas do Asfalto" |
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| é uma questão de ponto de vista, de facto as árvores não estão entrelaçadas |
Foi um fim de semana que passou de repente. Toda a gente se
divertiu imenso, muitos deram largas à sua imaginação, e não vou entrar em
pormenores porque o que aconteceu na concentração ficou na concentração, e quem
quiser saber como é que é, vá lá – mas atenção: vão com bom espírito, com a
abertura mental bastante para ser tolerante com as extravagâncias e excessos
sendo respeitoso, sempre num espírito de fraternidade e solidariedade que é
essencial num ambiente motard.
A noite de 6ª feira teve as características típicas das
noites de 6ª feira, toda a gente a ansiou ao longo duma semana de rotina
quotidiana e quando chegou a noite a euforia foi enorme e a festa grandiosa.
A noite de Sábado, sempre mais amena e serena do que a da véspera,
decorreu magnífica e lá pela madrugada começou a cair um nevoeiro que em breve
se tornou cerrado. Às tantas já não se via bem a poucos metros de distância. Estava
cansado embora, ao mesmo tempo, excitado. Decidi regressar à tenda para
sossegar e estar em condições de conduzir no regresso a Lisboa.
Caía o nevoeiro e subia a magia da noite. Sentei-me junto à
tenda no banquito tripé a fumar e a observar a paisagem, o espaço da festa abaixo da encosta do espaço para acampar tinha desaparecido e só as árvores
tomavam vulto transformando-se numa floresta encantada onde não me
surpreenderia aparecerem gnomos, fadas, e outros seres raramente visíveis.
Às tantas observei um
facto curioso, fantástico e que nunca tinha visto, cheguei a duvidar de mim e
da sua realidade pondo a hipótese de já estar a alucinar com overdose de
cerveja, mas não, eu estava mesmo a ver uma árvore sem fim.
Era tão extraordinário o que via que senti uma grande
necessidade de o partilhar, mas como é que eu ia lá abaixo dizer aos
companheiros
- venham lá acima ver uma árvore sem fim, prolonga-se pelo céu
em arco como um arco íris ao contrário, se o arco íris tem todas as cores, este
é o seu oposto, faz um arco de negritude no cinzento plúmbeo do céu.
Fiquei a contemplar, mantendo a perspectiva, e aguardando
que alguém comunicativo subisse para partilhar o que via. Daí a pouco subiu uma
jovem companheira que me deu as boas noites e eu aproveitei para lhe apontar a
tal árvore que me tinha já lembrado a história do pé de feijão.
Como eu, ela sentiu a sensação de alucinação, o cume da árvore
que não se via e em seu lugar um arco que atravessava o céu de Norte para Sul. Ficamos
um momento contemplando juntos este extraordinário que a magia da natureza nos
proporcionou, despedimo-nos satisfeitos, e pouco depois adormecia como uma
pedra por mais ruído que houvesse.
Domingo é sempre chato, é a despedida. São os últimos
rituais de consagrações, entrega de prémios, anúncios de próximas actividades,
e ainda a partilha do bolo de aniversário do Moto Clube, para a qual não fiquei
pois queria regressar a Lisboa antes da hora dos engarrafamentos de fim de
tarde.
Foi muito bom, parabéns Ratazanas do Asfalto, obrigado, até à
próxima.
Grato também pela vossa atenção, vosso
António Carlos Borges






































































